Boas Meninas

O dia-a-dia das meninas do bem.

14.12.04

Programa Antropológico



Eu tenho de admitir: sempre tive uma quedinha por cavalos, fazendas, feiras agropecuárias. Talvez algum resquício do ano que estudei em uma escola agrícola em Barreiras e frequentava exposições de gado e cavalo. Enfim. A verdade é que sempre fui louca para assistir a um leilão de cavalos. Era um misto de curiosidade e saudade de um tempo bom, em que eu me conviva com os verdadeiros country boys e girls.

Essa semana, tive a minha oportunidade. Recebi o convite para assistir a um leilão de mangalarga machador, no Pontão. Ingressos a 50 reais, eu ganhei cortesias e não pude perder a oportunidade de conferir de perto o tal mundinho. Principalmente aqui em Brasília, onde os frequentadores mais ilustres são nada mais nada menos que os políticos que compõem a base profissional onde trabalho.

Vestida a caráter (C-L-A-R-O!!!), de calça jeans, bota de bico fino e jaqueta, lá fui eu para o grande evento. Cheguei atrasada, para variar, mas exatamente na hora em que um dos reprodutores mega-estrelinha-plus era apresentando no palco. O cavalo – negro e lindo – era mesmo imponente. E trotava num palquinho minúsculo debaixo de uma chuva de papel picado prateado. A cena era impressionante, reconheço. Toda empolgada, acenei para o grupo de amigas de trabalho que estavam sentadas na segunda mesa do leilão (isso, gente, éramos vips mesmo. A primeira mesa era do governador). E já fui levando uma bronca. “Ei, abaixa esse braço, tá querendo dar um lance??”, brincou uma das meninas.

Bom, eu até queria dar um lance. Ia ser o máximo. Mas a verdade é que nunca teria dinheiro. Ainda mais para aquele cavalo tão “star”. “Em quanto estão os lances?”, perguntei, louca para saber qual era o grau de desperdício de dinheiro do local. “Ah, tá em R$ 1 mil”, me informaram. Mil reais?? Como assim??? Todo mundo não diz que cavalo é um treco super caro?? Mil reais me pareceu uma bagatela. Que decepção...

“Não, vc entendeu errado. Mil reais é o valor da prestação. São 18 prestações...”, esclareceram correndo. Ah, tá. O cavalo tava em R$ 18 mil. Preço de carro, agora sim. Mas que coisa inteligente, né? Os caras leiloam pelo valor da prestação, assim ninguém sofre para dar lance. Afinal, subir a oferta de R$ 500 para R$ 600 nem parece uma operação tão ousada assim... Espertíssimos!!

E, além da operação antropológica de comprar cavalinhos, o leilão teve momentos impagáveis. Como um senhor que, empolgado com o vinho grátis e ambundante, não cansava de dar lances nos animais mais concorridos. Foi preciso que um amigo, sóbrio, sentasse ao seu lado para controlar a compra compulsiva antes que não restasse sequer dinheiro pro táxi (sim, porque naquele estado só voltando pra casa de táxi mesmo). Ou as estratégias de marketing do dono do haras, avisado de cada grande comprador presente no evento. “Aquele ali já comprou três cavalos, vai lá tirar uma foto com ele”, aconselhava as assessoras. Como sempre, propaganda é a alma do negócio.

Mas, o ponto alto da noite foi mesmo a venda da mula do governador. Depois de um discurso inflamado com todas as qualidades da bichinha, e sem faltar a exuberante chuva de papel prateado, a tal mula foi vendida por R$ 43 mil; E eu, pobre pé-duro, apenas torcia para ganhar o sorteio de um cavalo selado, como forma de angariar fundos para meu casamento...