O lindo e os loucos
Tenho de admitir que acordei domingo com o estômago embrulhado. Não, não estava de ressaca. Era puro nervoso pelo que me esperava na hora do almoço – o momento de apresentar o lindo do meu namorado à minha família. Sinceramente eu não sei porque inventaram essa norma social de que namorado tem de conhecer família. Para que?? Pura perda de tempo. Depois o namoro não dá certo e, além de toda a dor de cotovelo que vc invariavelmente vai estar sentindo, ainda tem de dar explicações para quatro gerações diferentes de familiares...
Mas, enfim, sou uma menina de família. E como estou cheia de boas intenções para com o lindo, tinha de apresentá-lo para a galera. E ele – no papel de moço mais do bem do mundo – tava louco para ser integrado na tradicional família baiana de onde eu saí...
Sem ter opção, comecei a me arrumar já pensando em quantas doses de álcool seriam necessárias para me deixar relaxada. Perto da hora marcada, recebo um telefonema com o aviso de era para eu chegar mais tarde. “Ué, por que?” “Porque todo mundo quer se arrumar para esperar teu namorado chegar...” Como assim??? Vai ter comitê de recepção com banda de música e fogos de artifício??? Ai, meu Deus, o lindo vai ter certeza de que sou a mais encalhada da cidade...
Fiquei em casa, matando tempo, esperando a hora remarcada para encarar o desafio. Já dentro do carro, fazendo exercícios de respiração para ficar calma – sim, porque considerando todos os loucos existentes na minha família, aquele almoço poderia se transformar num pesadelo. Para mim, óbvio – o lindo toma o caminho do cemitério. “Ei, onde vc vai? Tá certo que vou morrer de ansiedade, mas dá para ser meno óbvio???” Bom, ele seguiu, mas para a floricultura. A fim de fazer uma média com as sogrinhas (sim, porque na minha casa são duas sogras, coitado) comprou flores para cada uma delas. O lindo, além de lindo, é educado. Ponto para mim. E para ele.
Chegamos em casa, flores entregues, apresentações feitas. E foi preciso menos de meia hora no recinto para meu namorado ficar à vontade. Bom, meia hora, duas cervejas e duas doses de pinga, tenho de admitir. Mas tudo correu bem. Pelo menos até onde as garrafinhas de smirnoff ice me deixam lembrar, ninguém fez feio. Minha família se comportou direitinho – o máximo que os seis primos homens, com tamanhos variando entre 1,80m e 1,99m, fizeram foi avisar: “é só tratá-la bem que será bem recebido”. O lindo conquistou todo mundo e eu não dei nenhum vexame. E ainda saí pela porta da frente exatamente na hora em que as caixas de fotografias antigas chegavam pelo corredor...
Sobrevivi. Pelo menos a esse pedaço da história.
