A música nas sombras
“Aonde vc vai meu sonho vai, meus sonhos vão
a parte quente que pressente a tua mão, meu coração
Você que faz a minha vida variar”
Vida boa, Fausto Nilo e Armandinho
Eu não sei se com todo mundo funciona assim, mas a minha memória é ativada por música muito mais do que por qualquer outra coisa. Quer dizer, mais do que uma foto, um cheiro, um lugar ou um objeto, uma música consegue trazer lembranças de volta com uma força fenomenal. Apenas ouvindo uma canção qualquer, eu consigo lembrar de uma pessoa ou de um momento com uma riqueza de detalhes – e o mais importante, uma riqueza de sentimentos – impressionante.
Isso vale para absolutamente tudo. Tem uma música que o Caetano gravou, Vida Boa, que me lembra a minha infância em Salvador, o carnaval, os bailes infantis... e eu sou simplesmente apaixonada por ela. Em um show na Concha Acústica, há uns três anos, quando ele a cantou, eu chorei de pura felicidade. E a música continua me deixando assim até hoje.
Claro que ter lembranças associadas às músicas não é nenhum grande transtorno. Na maioria das vezes, é bem legal. Como quando a música te lembra coisas felizes. Como save a prayer, que me lembra Buenos Aires. Ou Asererê, que me lembra a viagem à Europa (é sério, tinha a propaganda de um filme com essa música que tocava o tempo todo e eu associei, fazer o quê?). Exemplos não faltam. Feel me lembra Roma. Os hits do Red Hot me lembram o André (comentarista fiel desse blog). E Lips like sugar me lembra minha amiga Cici (de malas mais que prontas para ir embora, aliás).
O problema é quando não consigo desvincular as músicas das lembranças. Daí, a situação pode se transformar em uma grande injustiça. Eu fico sujeita a nunca mais ouvir um bom som sem que ele imediatamente me lembre alguma coisa ou alguém. Odeio Maria Rita hoje, por exemplo, porque quem me apresentou à pobre coitada foi um MALA (assim mesmo, em caixa alto). Só de ouvir aquela voz parecida com a da Elis, sinto calafrio...
Duro também foi o show do Benjor. O cara é o máximo e eu sempre o adorei. Mas hoje, tudo no Jorge Ben me lembra meu ex-husband-nego-lindo-chatinho. Ele adora o som do cara e a gente ouviu muito Benjor juntos. Até ficamos arrasados por estar fora da cidade no último show que ele fez aqui, em 2002. A relação Benjor/ex ficou ainda maior nas minhas lembranças quando o chatinho (o ex, não o Jorge) roubou outro dia o meu cd ao vivo, que eu adorava. Enfim, no show, eu tava fazendo um mega esforço para desvincular os dois na minha memória. Para simplesmente curtir o show, que foi maravilhoso. Mas não adiantou. Rolou Taj Mahal e eu desmontei. Uma maldade. Tomara, ao menos, que tenha um bando de gente ouvindo música e lembrando de mim por aí também...
