Meu dia de menina ilustre
Olha eu aparecendo nas páginas do Correio Braziliense!!!!
Vamos todos virar beat
Bernardo Scartezini
esportess@correioweb.com.br
Troquei a 109 Sul pelo Parque da Cidade. Meu cardiologista ficaria orgulhoso. E meu amigo Caponildo deve estar puto com a minha cara, nunca mais fechei o Beirute. Mas, meu chapa, não se preocupe. Ainda mantenho certa dignidade. Vou até o Parque no meu golzinho fubanga, ouvindo MC5 no volume máximo do estéreo automotivo, batucando no volante, abrindo caminho às 7h53 da madrugada. Kick out the jams.
É um bom exercício de alongamento. Fico relaxado. Preparado para uma saudável caminhada. Periga até dar ‘‘bom dia’’ para as árvores e também para os patos da lagoa, e só. Porque as gostosinhas que levam yorkshires para passear confundiriam minha recém-adquirida diplomacia matinal com alguma espécie de assédio desavergonhado. Eu não sou o maníaco do Parque.
Manhã dessas, estávamos em poderosa marcha. Acompanhado de minha estimada Michelle e da Aline, nossa amiga maratonista. Apesar de tão formosa companhia, não pude deixar de notar — e invejar — um personagem surgido por entre arbustos. Cabelo desgrenhado, barba de dois dias, peito nu, vestindo um jeans maltratado pela poeira da civilização ocidental, meio traseiro à mostra. O tiozinho acabara de acordar. Amaciava o lombo com uma ducha gelada. A geração saúde, perplexa, abriu uma clareira. Ninguém queria se misturar com o sujeito encardido. Parecia um pedinte, um vagabundo, um pária. Mas não, não, nanani. Não me deixei enganar. Percebi de imediato que ele era um beatnik. Um poeta urbano.
Naquele exato momento, me bateu uma inquietação existencial. Uma vontade danada de virar beat também. Largar tudo. Abandonar o jornalismo. Viver para o instante, para a natureza, para a poesia. Pensei em Jack Kerouac correndo atrás de trens, se escondendo em vagões de carga para cruzar a Califórnia. Pensei em vir morar no Parque da Cidade para sempre. Pensei tanto que pensei em voz alta. ‘‘Ahn... Virar beat, Bernardo?’’, desconsiderou Michelle, com aquele seu olhar de sarcástica reprovação. ‘‘Sei. Virar beat e ser sustentado pelo papai?’’
Murmurei algo sobre Keroauc-ser-sustentado-pela-tia-e-daí? Eu ainda precisava de uma cúmplice. ‘‘Vamos todos virar beat, Aline?’’ A guria já tinha pensado no assunto. Ela desconstruiu meu discurso, apontando uma falha estrutural. ‘‘Você não vive dizendo que é punk? E agora quer ser beat? Tá...’’
Não sou beat. Nem punk. Então fui tomar café da manhã com Michelle. Na Bellini, a padaria chique da 113 Sul. Pedi caracu. Não tinha cerveja escura. Apenas mate limão diet; e uns pães de queijo. ’’Tu não quer mesmo ser beat, não?’’, insisti. Michelle sorriu e jurou que ia pensar a respeito. Mas agora ela tinha hora marcada no salão, pintar o cabelo de vermelho-canetinha. E eu fui pra casa, chupando meu picolé chambinho, cor de rosa, em forma de coração.
