Boas Meninas

O dia-a-dia das meninas do bem.

2.9.04

O outro lado do caminho



(continuo com muito trabalho, ok? Daí a falta de tempo para escrever aqui...)


Esses últimos dias reconheci em todos nós um hábito horrível: sempre achamos que nosso ponto de vista é o correto sem nos darmos sequer ao trabalho de considerar o ponto de vista do outro que passa pela mesma situação. Sabe aquele papo de analisar as duas versões de uma mesma história? Pois é. Aquele fundamento básico do jornalismo – ouvir o outro lado –, que nós, jornalistas, acabamos cumprindo de forma burocrática, na redação e na vida. Sem nunca pensarmos seriamente sobre qual é o outro lado da moeda (ok, ok, desculpem o clichê, estou perdendo a prática e o talento).

Então. Digo que reconheci um “hábito” porque acho que fazemos isso de maneira quase involuntária. Mais ou menos como uma reação natural às coisas que enfrentamos. Sim, porque essa mania de querer enxergar apenas o nosso lado e, o mais grave, de acreditarmos que só ele é o justo e o correto, vale para tudo. De relacionamentos a trabalho, de brigas de família a amigos precisando de conselhos.

O lance é que, em algum momento de nossas vidas, acabaremos mudando de posição. Invariavelmente. Hoje posso ser a namorada traída, amanhã, a traidora e no dia seguinte, a outra. Posso ser a jornalista de denúncias e depois a assessora de imprensa do denunciado. Posso passar de subordinada explorada para a chefe que tem de lidar com empregados desmotivados. Posso ser a filha sem tempo para mãe carente e, depois, a irmã precisando de ajuda do irmão sempre ocupado. E por aí vai. Exemplos temos aos montes.

Acontece que nos últimos dias, talvez por conta dos maus agouros de agosto, vivi e presenciei várias dessas situações. Vi a traída, a traidora, a outra; a assessora e a jornalista; a subordinada, a chefe. Gente do bem em todos os casos, o que inviabilizou a adoção daquele juízo de valor que já trazemos pronto na memória. Não havia bandidos, canalhas, vítimas, escrotos... Só gente enfrentando momentos difíceis.

E aí tive certeza do estrago, muitas vezes irremediável, que uma atitude irresponsável, inconseqüente ou arrogante pode causar. E mesmo gente do bem corre o risco de tomar alguma dessas atitudes, principalmente sob pressão. Percebi que parar por um minuto, para se colocar no lugar do outro, ou lembrar de onde estávamos antes, pode salvar uma situação. Ou, se isso não for possível, pode ao menos nos possibilitar atitudes mais nobres, generosas e compreensivas. Dignas de uma boa menina.

Esse papo quase careta é para lembrar a todo mundo – e principalmente a mim mesma – a importância de se mudar de perspectiva quando nos deparamos com situações difíceis. Muitas vezes, até mesmo uma mudança geográfica ajuda. (Tive dois casos concretos no último ano: a viagem para Argentina, que me deu uma visão diferente da que eu tinha de mim mesma, e a viagem para Bahia, que mostrou uma nova perspectiva da vida de solteira).

O principal é tentar ter a dimensão do todo. Entender que o caminho não está restrito ao pedaço que enxergamos dele. Pode haver um atalho ali na frente, escondido atrás da pedra, mas que só descobriremos se passarmos pro outro lado da estrada.

Isso, people. Ampliar horizontes.