Cigarras brasilienses
Ok, eu adoro morar na Asa Sul. Mais ainda, adoro morar no quinto andar. Durante toda a minha vida, eu morei em casa ou no primeiro andar dos prédios (sabe-se lá porque, alguma coincidência inusitada do destino). E quando encontrei o meu atual apartamento, fiquei animada com a expectativa de viver tão longe do chão. Mesmo que, para alguém que tem medo de altura – e aquela vontade incontrolável de se jogar cada vez que olha para a terra de cima – isso fosse um grande desafio.
Morar no quinto andar acabou se revelando super vantajoso. Fico longe dos barulhos diários de carros e bate-papos. Tem sempre ventinho na minha janela. Não tem perigo do ladrão-homem-aranha escalar o prédio e chegar em mim. E ainda posso fazer uma malhação rapidinha subindo e descendo de escada. Em compensação... existem as cigarras. Deus do céu, o que são essas cigarras??!! Parece que, quanto mais alto vc está, mais elas se sentem à vontade para te visitar. Visitar, não, invadir mesmo. Minha casa está sendo invadida por cigarras!!!!
Ontem à noite, eu quase entreguei os pontos. Tive vontade de fazer as malas e avisar: ok, podem tomar conta. Não quero mais. Caramba! Não bastassem o barulho ensurdecedor que elas fazem o tempo inteiro – e que sempre impressiona a ala baiana da minha família, quando vem me visitar – elas não paravam de entrar pela janela. A cada minuto, um estrondo. Era mais uma cigarra se batendo nos vidros da janela. Chegou uma hora em que tinha cigarra na luz da sala, na cozinha, no sofá, se batendo na televisão, no quarto, na minha cama... E o pior, presa no lustre do quarto, fazendo um verdadeiro escândalo e sujando tudo. Quem ouvia, achava que eu estava quebrando todos os móveis!! E pensar que esses bichinhos boêmios não têm nem cinco centímetros de comprimento!!
Eu, refém na minha própria casa, não sabia o que fazer. Liguei para amigos, pedi ajuda, apelei para safanões com jornais e revistas. Nada. Eu era uma resistência solitária diante de um exército de bichinhos nojentos. E nem tinha a opção de fechar as janelas. Neste calor insuportável, ainda era preferível lidar com cigarras me carregando do chão a curtir uma sauna enquanto assistia tevê. Não tive saída. Apaguei as luzes, liguei o ventilador no máximo e me enterrei debaixo do lençol. Ou mudo para à beira da praia – e troco as cigarras pelos pernilongos – ou espero pacientemente pelo inverno, quando elas darão com a porta na cara do formigueiro...
