"Nós somos aquilo que fazemos repetidamente.
Excelência portanto, não é uma ato, mas um hábito" (Aristóteles).
Concordo com Aristóteles, discordo da Intelig.
Que papo errado é esse de acabar com nossos hábitos??! Sou radicalmente contra essa campanha preconceituosa de que vícios e manias são sinais de limitação ou conservadorismo. Longe disso. Acredito eu que nossas pequenas manias cotidianas, identificadas facilmente pelas pessoas queridas que nos rodeiam, são a principal marca da nossa personalidade. Claro que não dá para se acomodar, nunca mais tentar algo novo ou se enclausurar na rotina. Óbvio. Mas, no dia-a-dia, não é a beleza de fulana ou a agilidade de beltrano que deixam saudades nos amigos, por exemplo. São as manias – de sempre usar camisa de flanela por cima da camiseta de banda de rock, de tomar, invariavelmente café no Martinica – que nos fazem lembrar, gostar e nos divertir com eles.
Falo isso porque me dei conta da quantidade de hábitos bobos que marcam a minha personalidade. Que fazem parte do conceito Michele de ser. Hoje, ao ir almoçar em um restaurante da cidade, estacionei o carro na mesma quadra, no mesmo bloco e quase na mesma vaga que estaciono sempre que vou lá. E o meu namorado lindo, desconhecendo essa rotina, me perguntou: “ué, pq vc não deixa com o manobrista, na porta do restaurante?” Pergunta óbvia, lógico, já que deixaria o carro num lugar mais seguro e ainda andaria menos no sol quente. “Ah, eu sempre estaciono aqui”, respondi. “Por quê?”, ele insistiu. “Huum... porque sim. Porque eu gosto. Porque me acostumei. Sei lá porque. Porque é hábito”.
Ok, pode não ser inteligente ou prático. Mas tenho certeza de que as pessoas que conhecem essa mania e vão almoçar lá, se por algum motivo estacionam naquele lugar, lembram de mim. Essa sou eu. Não é fantástico? E isso vale para um monte de coisas. Como a reclamação das minhas amigas-primas-mãe-irmã para o tempo que eu perco escolhendo uma roupa para vestir. Elas dizem que nem se dão ao trabalho de responder quando pergunto “ficou bom?”, porque sabem que eu, invariavelmente, vou trocar alguma peça... Ou como o meu mais novo vício – devidamente batizado pela Fê de anorexia de cabelo – que está me fazendo cortar o cabelo o tempo inteiro, com intervalos cada vez menores...
Ah, mas fala sério se não essas manias que nos fazem perceber como conhecemos – e gostamos – das pessoas??
São elas que nos fazem sentir a maior saudade, como quando penso hoje nos inevitáveis atrasos da Cici, para qualquer que fosse o evento combinado. São essas manias que nos fazem saber que amamos a pessoa, apesar de tudo, como o hábito mais do que irritante da Rô de esquecer o celular em casa ou apenas não atendê-lo quando está na bolsa, sempre que precisamos desesperadamente falar com ela. Ou que nos fazem ter certeza de que estamos apaixonados, como a mania, implicante e adorável, do lindo do meu namorado de fazer ressalvas aos pratos de todos os cardápios dos restaurantes da cidade. (Gente, ele já chegou ao cúmulo de mandar chamar a cozinheira de um restaurante japonês para pedir alterações em um yakissoba. Não conseguiu. Mas a conversa – a mesma que me garantiu os ovos mexidos no café da manhã – lhe rendeu um prato quase que exclusivo, tamanhas foram as adaptações no original para agradá-lo... )
Enfim, por isso, concordo com Aristóteles. Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. E que atire a primeira pedra quem não tem manias das quais não abre mão!!!
P.S. Alguém pode, por favor, me explicar o que significa o ditado “o hábito faz o monge”?