Cansei de tentar ser mulher maravilha
Cansei. Enchi o saco, estou entregando os pontos. Não quero mais essa vida de mulher solteira-moderna-independente. Não sei quem foi a tonta que achou que sairíamos lucrando. Para quem vê de fora, tá tudo lindo. Maravilhoso. Me sinto uma típica leitora de Nova...
Sozinha, independente, com salário decente, carro novo, profissão legal, prêmios no currículo, um grupo maravilhoso de amigos, estilo (e modéstia, claro). Conheço Paris e Buenos Aires, freqüento barzinhos cools, baladas da moda. Leio bons livros, vejos bons filmes, ouço boa música. Vida social ativa, vida amorosa ainda mais agitada. Um ex. Telefones anotados na agenda. Enfim... o estereótipo da mulher solteira do século XXI. Tudo aparentemente perfeito.
O mais grave é que sou exatamente do jeito que queria ser quando tinha 13 anos. Nunca me imaginei com 30 anos casada, com filhos, cuidando da casa e do marido, num empreguinho meia bomba. SEMPRE me imaginei como a descrição acima. Talvez, com um pouco mais de grana, um pouco mais sedutora e com mais viagens carimbadas no passaporte. Mas exatamente assim.
O problema é que por trás de todo esse glamour, existe um fardo pesado. Principalmente para quem, como eu, vive sozinha. Com família em outro estado, ex-marido que não atende telefone e amigos tão ocupados quanto eu, acabo sozinha para cuidar de tudo. Da casa, do trabalho, do corpo, da mente, da vida social.
Tenho de cozinhar, lavar, arrumar. Também tenho de instalar o DVD, pôr o computador para consertar, trocar a lâmpada. Tenho de pôr óleo no carro e fazer a revisão. Mas também tenho de fazer as compras de supermercado. Tenho de trabalhar das 9h às 18h, sendo absolutamente competente. E ainda achar tempo para ser linda. Fazer unha, cuidar do cabelo – ei, alguém tem idéia do trabalho que dá ter o cabelo vermelho dessa cor estilosa? São hidratações semanais, tinturas mensais, corte, xampu pré-lavagem, modelador de cachos... ufa! – fazer exercícios, manter o guarda-roupa perfeito. Ceder à tentação do novo sapato da coleção da Arezzo, sem esquecer de que é preciso pagar a tv a cabo e a faxineira.
Não bastasse isso, ainda preciso ser culta. Arranjar tempo para ler, ir ao cinema, ouvir as últimas novidades do mundo da música. Sem desconhecer os clássicos de Chico Buarque a Led Zeppelin. Tá achando que acabou??? Não! Temos de dar atenção à família. Ligar, visitar, estar presente, animadíssima, aos almoços de domingos. E ainda ouvir as cobranças sobre casar de novo...
É por isso que cansei. Entrego os pontos mesmo. Quero minha mãe para acudir problemas domésticos e cuidar de mim quando eu estiver doente. Quero minha sobrinha me recebendo à noite, cheia de carinho, para me mostrar que aprendeu a escrever “titia eu te amo”. Quero um amor de verdade, que me diga “Pode deixar, meu amor, eu resolvo”. Dá?
