O mundo é dos velhinhos
Sem nenhum quêzinho de deslumbre, minha ex-cunhada, que trocou Brasília pela vida-chata de morar em Veneza, sempre nos contou os dramas de morar na Europa. Na lista de coisas – acreditem, existem várias coisas ruins de se morar no primeiro mundo – ela incluía a quantidade de velhinhos que existem na Itália. E o mais grave, como eles são conscientes de seus direitos e, por conseqüência, absolutamente xaropes e barraqueiros. “Faça qualquer coisa, fuja, mas não brigue com uma senhora italiana”, ela insiste em ensinar aos visitantes.
Óbvio que, da primeira vez que ouvi o conselho, eu ri. Achei o maior lindo (sou super fã de velhinhos, admito) saber que os idosos italianos lutam pelos seus direitos no ônibus, no banco, no mercado, em qualquer lugar. Achei o máximo. Até o dia em que assisti aqui mesmo, em Brasília, a versão brasileira do que Dani sempre criticou.
Estava eu saindo de casa no fim de semana, quando decidi passar na Belini para comprar umas comidinhas. Padaria high level, a Belini tem café da manhã e quitutinhos maravilhosos. Então. Estava eu, escolhendo um docinho, quando vi o primeiro velhinho em ação. Para pedir pães de queijo, ele passou na frente da galera, super na boa. Cantou a atendente de forma escancarada e bateu papo com todo mundo. Fez piadinhas. Não calava a boca. Se fosse 30 anos mais novo, seria um verdadeiro mala. Na beira dos 70, todo mundo encarou como “simpático”. Muuuuito simpático.
Dez minutos depois, fui para a fila pagar meus pães de queijo e quindins. Já impressionada com a quantidade de velhinhos da Asa Sul. Acostumada a morar no Guará e depois no Sudoeste, ainda não me habituei com a faixa etária da população do Plano. E, lá, na mega fila da Belini, um deles simplesmente ignorou todo mundo – outros contemporâneos dele, inclusive – e foi direto pagar as compras. O moço do caixa, coitado, ficou sem ter o que fazer, hesitou, demorou a pegar as compras. E tomou uma baita bronca pública.
“Em qualquer lugar do mundo, idoso tem preferência. Só aqui não somos respeitados”, bradou o velhinho, emendando um discurso de cidadania, respeito aos mais velhos, blá-blá-blá. Não satisfeito, largou as compras no caixa e saiu dando um verdadeiro escândalo. Ficou todo mundo chocado. Tudo bem, ele tinha mesmo direito. E todo mundo tem mesmo de respeitar os mais velhos. Mas... dá pra ser menos inconveniente ou barraqueiro? Afinal, cidadania tem a ver também com educação. Aqui ou no primeiro mundo.
